
#1O programa e o propósito do primeiro episódio
O podcast Quem Disse Que Ia Dar Certo estreia com identidade já definida: nome oficial, canal no YouTube, presença no Spotify e no Instagram, além de um site que entrará no ar com uma proposta de gamificação. A ideia do programa é simples: convidar pessoas para conversar sobre momentos em que não havia garantia de sucesso — situações em que alguém precisou acreditar, insistir e fazer acontecer.
O primeiro convidado é Marcos Lacerda, também chamado de Marquinho. Formado em Jornalismo pela PUC Recife, acumula mais de seis anos de experiência no audiovisual e mais de cinco lançamentos digitais. Ele participou do registro de uma das jornadas mais marcantes do futebol pernambucano recente: o acesso do Santa Cruz, acompanhando o clube com suas câmeras e captando não apenas os jogos, mas também as reações, a tensão, a esperança e a celebração da torcida.
#2O acesso do Santa Cruz: como começou uma oportunidade inesperada
Uma contratação de trinta minutos Marcos foi inicialmente contratado apenas para fazer imagens de drone de uma partida do Santa Cruz. A produção precisava de uma imagem bonita do time entrando em campo para compor o vídeo final de um jogo do mata- mata.
Ele chegou, fez as imagens aéreas do time entrando no estádio e resolveu o trabalho em aproximadamente 30 minutos. Como ainda faltavam cerca de duas horas para o fim da partida, permaneceu no local, na área de imprensa, assistindo ao jogo.
A princípio, Marcos sequer havia levado sua câmera: no carro, estava apenas o drone, porque a proposta era realizar somente aquela captação. Ao perceber que havia tempo disponível e que o profissional que normalmente filmava a torcida não estava presente, pensou que poderia tentar contribuir: • tinha uma câmera; • gostava de registrar reações; • estava no estádio; • poderia oferecer uma cobertura adicional.
Como ele próprio resume, as oportunidades aparecem para quem está presente. A sorte, nesse caso, favoreceu quem estava no lugar certo e disposto a agir.
Da captação voluntária ao convite Na partida seguinte, foi novamente chamado para fazer o drone. Dessa vez, levou também a câmera na bolsa e perguntou se poderia ajudar com imagens da torcida e do jogo. Os responsáveis aceitaram, uma das imagens chamou atenção e Marcos passou a ser convocado novamente. No terceiro jogo, mesmo com febre, ele compareceu e filmou a partida.
A jornada começou de maneira voluntária: inicialmente, Marcos fez o trabalho por conta própria, sem remuneração definida. Depois que seu esforço foi reconhecido, passou a receber ajuda de custo. O projeto não nasceu de um planejamento completo nem de uma contratação estruturada — começou com uma tarefa específica, evoluiu a partir de sua iniciativa e ganhou forma à medida que ele demonstrava o que era capaz de produzir.
A sequência da campanha Marcos entrou na cobertura quando começou o mata-mata: 1. Primeiro jogo do mata-mata: fez a partida em Recife. 2. Jogo fora de casa: não acompanhou a viagem. 3. Jogo de volta: voltou a ser chamado. 4. Quartas de final: filmou novamente em Recife. 5. Semifinal e viagem para Natal: surgiu a possibilidade de acompanhar o time fora.
A viagem a Natal Quando recebeu o convite para viajar a Natal, Marcos inicialmente recusou porque tinha compromissos profissionais em Recife — trabalhava pela manhã e estaria livre a partir do meio-dia. Com a organização da viagem de ônibus, conseguiu se juntar à delegação e à torcida. Essa disponibilidade foi decisiva.
Condições de trabalho na Arena Pernambuco Na Arena Pernambuco, as condições de trabalho eram mais favoráveis. O estádio contava com área de imprensa, maior comodidade e espaços adequados para a produção de conteúdo. Antes do jogo, ele conseguiu acessar uma área reservada ao Santa Cruz, tomando o cuidado de confirmar onde o clube ficaria para não acabar na área destinada ao time visitante quando começasse a transmissão ao vivo. A estrutura de segurança também era mais organizada — havia um ambiente em que o Estado e os profissionais de segurança garantiam maior controle dos espaços. Isso permitiu trabalhar com antecedência: antes de o time entrar em campo, o material já estava produzido e entregue à equipe de redes sociais do Santa Cruz para publicação e engajamento.
Entre os conteúdos preparados estava uma fotografia feita no notebook. A imagem foi publicada e rapidamente repostada por diversos perfis e veículos, incluindo um jornal. A circulação ampliou significativamente o alcance do trabalho.
#3Mais do que filmar o time: registrar o que o futebol provoca
Marcos afirma que gosta do Santa Cruz, mas destaca que seu interesse principal, como profissional, está nas reações humanas. Para ele, poucas situações oferecem tanta intensidade emocional quanto um jogo de futebol. No estádio, é possível encontrar: • expectativa; • medo; • sofrimento; • esperança; • tensão; • choro; • euforia; • celebração coletiva.
Depois de fazer o drone, ele poderia simplesmente ir embora. Preferiu ficar porque percebeu que também poderia registrar tudo o que acontecia nas arquibancadas. A partir dali, passou a enxergar o jogo não apenas como uma disputa esportiva, mas como uma narrativa visual cheia de personagens e momentos decisivos.
Alguns de seus vídeos acabaram sendo publicados pela Casa da TV, que aproveitou cenas registradas por Marcos, especialmente imagens da torcida e dos momentos de comemoração. Um dos primeiros trabalhos ligados ao Santa Cruz foi o vídeo do grande bandeirão estendido na frente do estádio — a gravação começou como uma captação aérea simples, mostrando a chegada do time, mas outros registros produzidos durante a campanha foram ganhando destaque.
#4O pai e o filho: uma história construída ao longo de duas temporadas
Entre as imagens que Marcos mais valoriza está a de um pai levando o filho ao estádio. A cena poderia parecer apenas um registro de dois torcedores, mas ele já conhecia parte da história daquela família: o pai era uma figura importante na torcida do Santa Cruz e levava o filho para acompanhar o clube. Havia ali uma ideia de legado — a transmissão de uma paixão entre gerações.
Marcos também tinha uma memória anterior dos dois. No ano anterior, quando frequentava mais jogos do que filmava, havia visto o pai e a criança saírem chorando do estádio depois que o Santa Cruz foi eliminado no mata-mata. Quando começou a filmar a torcida na temporada seguinte, reconheceu os dois e percebeu que aquela relação poderia render uma história.
Ele passou a procurá-los durante os jogos e a acompanhá-los com a câmera. Quando soube que viajaria para Natal, entrou em contato com o pai, que respondeu que também levaria o filho para mostrar aquela experiência a ele.
O registro do acesso vista das arquibancadas Durante uma partida decisiva, o Santa Cruz estava empatando por 1 a 1 e se classificaria nos acréscimos. O jogo estava perto do fim, e a torcida demonstrava tensão. Em vez de permanecer voltado para o campo, Marcos virou-se para as arquibancadas e procurou pai e filho. Encontrou os dois e manteve a câmera apontada para eles enquanto o jogo terminava. Quando veio a confirmação da classificação, registrou a comemoração e a emoção da criança, cercada por torcedores com lágrimas e expressões de alívio.
Em outro momento, após o acesso, filmou o pai buscando o filho para comemorar. Marcos também estava emocionado e chorando enquanto segurava a câmera. A força do registro está justamente na combinação entre a conquista esportiva e a experiência íntima daquela família.
As imagens do acesso foram produzidas do meio da torcida. As cenas de dentro do campo, exibidas em alguns vídeos junto com as comemorações dos jogadores, não foram feitas por Marcos — ele conseguiu, no entanto, sincronizar suas imagens com a celebração dos atletas e com a reação coletiva dos torcedores.
O peso histórico da conquista O acesso tinha um peso especial para o Santa Cruz, que havia passado aproximadamente três ou quatro anos sem subir para a Série C. Para um clube tradicional de Recife e para sua torcida, a conquista carregava uma dimensão histórica que ultrapassava o resultado de uma partida.
#5Reconhecimento, visibilidade e os limites do retorno financeiro
Alcance em grandes plataformas A conversa destacou como o trabalho audiovisual pode alcançar grandes plataformas de mídia: uma imagem produzida de forma independente pode ser republicada por jornais, perfis de torcidas e outros veículos, chegando a públicos muito maiores que o perfil original do profissional — gerando números que variam de centenas de milhares a milhões de visualizações. O trabalho pode aparecer em: • jornais; • páginas de torcidas; • perfis oficiais de clubes; • programas e veículos de televisão; • redes sociais de grande alcance.
Para Marquinhos, esse reconhecimento traz felicidade. Ele entende que a valorização profissional chega com o tempo, desde que o trabalho continue sendo feito com consistência.
"Sempre pensar positivo que uma coisa a mais sempre vai acontecer." O reconhecimento também funciona como confirmação de que o profissional está no caminho certo: quando outras pessoas observam, republicam e valorizam um conteúdo, isso demonstra que existe qualidade e relevância no que está sendo produzido. A postura necessária é não desistir, manter o pensamento positivo e acreditar que novas oportunidades sempre podem surgir.
Visibilidade não significa retorno financeiro imediato Apesar da importância da exposição, o reconhecimento financeiro ainda não acompanha necessariamente o alcance obtido. Uma foto publicada em jornal ou um vídeo exibido por um grande veículo pode gerar benefícios indiretos, mas, até aquele momento, esses resultados não eram suficientes para garantir uma remuneração proporcional.
A principal fonte de retorno vinha do trabalho feito para o próprio clube: o Santa Cruz publicava os conteúdos, o que ampliava a visibilidade tanto do profissional quanto da instituição — mas a publicação pelo clube não significava automaticamente uma receita direta para quem o produzia. A situação revela três formas distintas de valorização: Tipo de valorização Reconhecimento profissional Alcance e visibilidade Como aparece Jornais e grandes perfis republicam o conteúdo Tipo de valorização Retorno financeiro Como aparece A publicação chega a torcedores e públicos numerosos Ainda ocorre de forma indireta e insuficiente O audiovisual como construção da imagem dos clubes Quem trabalha diretamente na produção de imagens participa da construção da identidade pública de um clube. A reflexão, centrada no Santa Cruz, vale para o audiovisual esportivo em geral: existem profissionais tecnicamente competentes, mas nem todos conseguem transmitir a paixão envolvida no futebol. Produzir uma boa fotografia ou um bom vídeo não se resume ao domínio do equipamento — é preciso compreender o ambiente, a torcida, a história do clube e a emoção do momento.
Quem está "com a mão na massa" ajuda a construir a imagem que o público passa a ter da instituição. O audiovisual não apenas registra os acontecimentos: ele traduz a paixão e contribui para a maneira como o clube é percebido nas redes sociais.
As redes sociais como vitrine permanente Para quem trabalha com audiovisual, as redes sociais são indispensáveis — funcionam como uma vitrine permanente do trabalho e podem fazer com que o profissional seja encontrado mesmo quando não imagina estar sendo observado.
Um exemplo citado foi o contraste entre o Instagram oficial do Santa Cruz, muito maior, e o perfil pessoal de Marquinho, que tinha cerca de mil seguidores. Em determinado jogo, ele produziu um vídeo a partir de imagens do Santa Cruz e de uma música de Arlindo Cruz relacionada ao amor, publicou no próprio Instagram e não esperava grande repercussão. Meses depois, descobriu que o Náutico, outro clube de Pernambuco, havia copiado a ideia e produzido um vídeo semelhante para suas próprias redes. Ele não soube como alguém ligado ao clube encontrou seu perfil, mas o episódio confirmou a força das redes: o conteúdo pode chegar a organizações muito maiores que o perfil original.
A exposição pode gerar diferentes consequências: • alguém pode descobrir o trabalho; • um clube pode reutilizar uma ideia; • um veículo pode republicar o conteúdo; • novos contatos e oportunidades podem surgir; • o profissional pode ser reconhecido fora do seu círculo imediato.
Até mesmo ser copiado demonstra que a produção foi vista e teve impacto. A família nem sempre compreende o trabalho Ao ser perguntado se sua mãe entende exatamente o que ele faz, Marquinhos respondeu que acredita que ela percebe melhor atualmente, especialmente porque acompanha suas publicações e comenta no Instagram do Santa Cruz, deixando mensagens de carinho e parabéns. Ainda assim, talvez ela não compreenda completamente a natureza do trabalho.
Para a família, a atividade pode parecer simplesmente a de alguém que possui uma câmera e pode ir a qualquer lugar fotografar. O fato de ele passar a semana trabalhando com a câmera também cria uma expectativa curiosa: mesmo no fim de semana, quando gostaria de descansar, os familiares imaginam que ele pode ser chamado para algum evento. Essa percepção mostra como o audiovisual muitas vezes é tratado como uma extensão natural da disponibilidade pessoal, e não como uma profissão que envolve planejamento, técnica, tempo e responsabilidade.
#6Quando um vídeo se torna uma narrativa
Embora Marcos seja capaz de produzir vídeos com muitos efeitos e elementos, ele defende uma abordagem mais contida. Em um dos trabalhos analisados durante a conversa, o objetivo era transformar uma cirurgia ortopédica em uma narrativa cinematográfica.
O vídeo mostra um médico realizando um procedimento no ombro, com instrumentos cirúrgicos e movimentos que poderiam facilmente parecer cenas de um filme. A produção não depende de excesso de transições, textos ou efeitos visuais: Marcos construiu a peça com imagens organizadas em começo, desenvolvimento e encerramento, usando basicamente os próprios movimentos, cortes e a ordem dos planos para contar a história. A ausência de elementos desnecessários preserva o impacto das imagens.
Para ele, muitos editores acabam prejudicando o resultado ao tentar inserir cortes, transições e efeitos em excesso. Uma edição tecnicamente chamativa não necessariamente é uma edição eficiente — o que importa é escolher imagens capazes de conduzir o espectador pela narrativa.
O peso da trilha e do ritmo Uma música alegre mudaria completamente o sentido de uma cirurgia. O mesmo aconteceria com uma trilha tensa, melancólica ou grandiosa. O ritmo dos cortes e a escolha dos planos também alterariam a interpretação do público. O editor, portanto, não apenas organiza arquivos: ele molda a história, conduz a emoção e determina como o acontecimento será percebido.
#7O desafio de filmar dentro de um bloco cirúrgico
Marcos considera o bloco cirúrgico um dos lugares mais complexos e incomuns onde já realizou uma captação. O ambiente envolve um corpo exposto, instrumentos médicos, profissionais em movimento e uma área limitada para circulação.
A preocupação principal não é apenas conseguir uma imagem bonita, mas não interferir na cirurgia. Há zonas delimitadas onde o cinegrafista pode permanecer, e Marcos precisa evitar: • tocar em instrumentos; • aproximar-se de áreas contaminadas; • atrapalhar médicos e enfermeiros; • contaminar materiais; • comprometer o procedimento.
Antes de começar, ele pergunta à equipe onde pode ficar e se pode filmar determinados movimentos; a equipe define os limites de circulação, e ele trabalha dentro deles. Mesmo com o espaço reduzido, precisa se movimentar, mudar enquadramentos e antecipar os momentos que poderão compor a narrativa: um olhar, o movimento de um instrumento, o corte, a reação de alguém ou a mudança de posição no ambiente.
Estratégia: preferir o excesso Para reduzir o risco de chegar à edição sem uma imagem importante, ele prefere pecar pelo excesso. Em uma cirurgia, chegou a produzir cerca de 300 takes. Não apaga imediatamente os arquivos que considera ruins: leva todo o material para o programa de edição e faz a seleção durante a montagem.
#8Captar e editar: etapas do mesmo processo criativo
Marcos não separa completamente a captação da edição — para ele, as duas etapas se complementam.
Quando recebe um roteiro, faz uma primeira leitura. Se consegue entender a proposta e visualizá-la mentalmente, passa a montar, na cabeça, as imagens necessárias. Não sente necessidade de reler o roteiro diversas vezes: depois que compreende a ideia, seu cérebro já começa a construir uma sequência visual. Durante a gravação, cada imagem é captada pensando em seu possível lugar na montagem — ele já imagina que determinado plano poderá entrar depois de outro, que uma mudança de enquadramento ajudará na transição ou que uma reação funcionará como encerramento. Em vídeos roteirizados, essa preparação é ainda mais importante: Marcos lê o roteiro, visualiza o que precisa ser registrado e, quando possível, verifica se a pessoa que será filmada também recebeu o material. Em produções mais estáticas, o processo de captação tende a ser mais simples.
Na edição, ele organiza os takes como quem constrói uma história: se precisa mostrar alguém realizando um procedimento, seleciona o plano correspondente; depois, busca outro em que a pessoa esteja olhando ou executando uma ação diferente. Também evita usar planos semelhantes consecutivamente, para que a transição entre imagens seja natural.
Arquivos, seleção e perdas Marcos já perdeu material por problemas como corrupção de cartão de memória, embora não tenha perdido um dia inteiro completo de gravação. Sua estratégia é não apagar arquivos durante a captação — a seleção é feita no programa de edição, quando já está com a narrativa em mente. Assim, ele procura o material de acordo com a necessidade da montagem: um plano de determinada ação, um olhar, um movimento ou uma reação. O próprio processo de edição funciona como uma triagem do que serve ou não para a história.
#9A assinatura visual: cor e estética cinematográfica
A principal assinatura de Marcos está no tratamento de cor e na tentativa de aproximar seus vídeos de uma estética cinematográfica.
Ele trabalha com imagens gravadas em Log, um perfil de imagem que preserva maior quantidade de informação para a pós-produção, mas entrega inicialmente uma imagem lavada, pouco saturada e quase acinzentada. Depois, no processo de correção e gradação, transforma esse material em Rec. 709, padrão utilizado em televisores, cinema e outras formas de exibição. O trabalho envolve ajustes de: • saturação; • contraste; • exposição; • tonalidade; • intensidade das cores; • aparência geral da imagem.
Marcos utiliza principalmente o DaVinci Resolve, que considera mais desenvolvido para correção e gradação de cor. O Adobe Premiere também permite realizar os ajustes, mas, segundo ele, concentra muitas dessas operações de maneira mais agrupada, enquanto o DaVinci oferece um leque mais amplo e detalhado de controles.
A preferência pelo visual cinematográfico também é uma forma de diferenciação: enquanto muitas produções para redes sociais seguem padrões repetidos, especialmente os modelos populares do TikTok, uma edição baseada em atmosfera, emoção e narrativa pode criar uma identidade própria.
#10Como o cinema treina o olhar de um editor
Marcos recomenda estudar, acompanhar tendências e assistir a filmes e séries com atenção técnica. Para ele, assistir a uma obra não é apenas acompanhar a história: é observar as decisões que estão por trás dela. Durante um filme, ele presta atenção a perguntas como: • Por que a câmera está próxima ou distante? • Qual é a intenção daquele enquadramento? • Que música está tocando? • O áudio pretende transmitir alegria, sofrimento, tristeza ou tensão? • Por que determinada cena tem uma cor específica? • O que muda quando a iluminação ou a paleta se altera? Enquanto assiste a filmes com a esposa, frequentemente interrompe a experiência para comentar uma imagem, uma escolha sonora ou uma intenção visual. Depois, costuma voltar ao computador para pesquisar referências e tentar reproduzir determinados resultados.
A linguagem das cores As cores podem sugerir diferentes sensações e contextos. Uma imagem amarelada pode transmitir calor, representar uma época antiga ou remeter à aparência de uma película envelhecida; uma tonalidade rosada ou esverdeada pode criar outra atmosfera.
Marcos cita dois exemplos: • Wicked — trabalha com uma paleta marcada por rosa e verde; • O Agente Secreto — apresenta diferenças entre cenas mais recentes e passagens associadas ao passado: as cenas antigas aparecem com tratamento mais amarelado, criando sensação de envelhecimento, e há momentos com aparência ainda mais antiga, reforçando diferentes camadas temporais.
Esse tipo de análise ensina que cor, enquadramento, música e distância da câmera não são escolhas aleatórias — todos esses elementos ajudam a contar a história sem que o público necessariamente perceba conscientemente o mecanismo.
#11Filmmaker, videomaker e editor
Marcos diferencia os termos usados na área audiovisual: Função Responsabilidade principal Profissional mais associado à captação de imagens e às Filmmaker decisões visuais de filmagem. Videomaker Profissional que filma e também edita o material. Profissional concentrado principalmente na montagem e na Editor pós-produção.
Marcos se identifica com as duas etapas: gosta tanto de filmar quanto de editar. Para ele, a captação já contém parte da montagem, porque o profissional precisa registrar pensando no uso futuro de cada plano.
#12O olhar é treinado diariamente
Além de filmes e séries, Marcos busca referências em outros profissionais da área. Quando vê um vídeo que considera bom, tenta entender o que o autor fez e quais elementos podem ser incorporados ao seu próprio trabalho.
Ele procura referências em diferentes áreas, sem limitar o aprendizado ao futebol. Um vídeo de futebol pode ensinar algo útil para uma cirurgia, assim como um registro cirúrgico pode inspirar uma edição esportiva. Um olhar médico durante um procedimento pode, por exemplo, ser associado na montagem ao olhar de um jogador, de um torcedor ou de um pai para o filho — a ideia é transportar soluções visuais de um contexto para outro.
Esse treinamento é constante: o olhar não é uma habilidade que se encerra quando o profissional domina determinado software ou equipamento; ele se desenvolve por observação, comparação, prática e repertório.
#13Bloqueio criativo e a importância de descansar
Marcos enfrenta bloqueios criativos praticamente todos os dias — e considera isso normal no processo de criação.
Quando o bloqueio aparece, sua recomendação é interromper o trabalho e fazer outra coisa. Permanecer preso ao vídeo pode fazer com que o profissional não consiga entregar o melhor resultado. Para ele, é preferível atrasar uma entrega a apresentar um trabalho abaixo do próprio padrão. Descansar, afastar-se temporariamente do projeto e voltar depois pode ser mais produtivo do que insistir sem criatividade.
#14Equipamentos, ferramentas e trajetória técnica
As ferramentas indispensáveis Em uma brincadeira de "top", Marcos foi questionado sobre os recursos que considera essenciais: Categoria Resposta Programa que não dispensa Adobe Premiere Ferramenta indispensável O próprio Premiere Equipamento indispensável Sua câmera Melhor compra dos últimos meses Uma luz Embora tenha respondido inicialmente que a câmera era o equipamento principal, Marcos destacou que a iluminação pode ser mais importante do que a própria câmera — uma boa luz influencia diretamente a qualidade visual da produção. Ele também mencionou o DaVinci Resolve como ferramenta fundamental para trabalhar a cor, embora o Premiere seja seu programa principal de edição.
A Sony ZV-E10 e o caminho pelas câmeras A câmera Sony ZV-E10 foi apresentada como uma câmera menor e de entrada, bastante popular entre vloggers e criadores de conteúdo. O "ZV" está associado à linha pensada para vlogs e para a chamada geração Z. Apesar de ser considerada uma câmera de entrada, seu preço pode chegar próximo de nove mil reais — mostrando que "entrada" não significa necessariamente baixo custo.
Marcos contou que passou cerca de seis meses estudando antes de comprar uma câmera e pesquisou intensamente em grupos de marketing e fotografia. Mesmo depois da compra, continuou buscando informações e descobriu ajustes que fazia de maneira inadequada.
Evolução do equipamento 1. Nikon — primeiro contato, embora tenha desenvolvido críticas ao balanço de branco da marca; ele abre exceção para modelos mais novos, especialmente os associados à linha RED. 2. Canon T5i — sua primeira câmera principal, usada durante praticamente toda a faculdade (preferia ter a própria câmera a depender dos equipamentos institucionais). 3. Canon 7D — veio quando Marcos se voltou temporariamente mais para a fotografia. 4. Sony ZV-E10 — marcou sua migração de volta para o audiovisual e para uma câmera mais alinhada à produção de vídeos. A T5i era híbrida, permitindo fotografar e filmar. Durante a faculdade, Marcos cursou disciplinas de televisão, rádio e fotografia — e foi na disciplina de fotografia que percebeu que queria trabalhar com imagem: "Pô, velho, é isso. Dá pra fazer." Ele começou de modo amador, experimentando com a câmera e aprendendo aos poucos. Segundo Marcos, a faculdade ofereceu fundamentos importantes, mas os professores nem sempre tinham tempo para ensinar todos os detalhes práticos necessários para alcançar um nível profissional mais avançado. A formação em Jornalismo ensinou a base, mas ele acredita que um curso de Cinema talvez aprofundasse outros aspectos da linguagem — a própria conversa deixa em aberto a questão sobre quanto um curso de Cinema se diferencia, na prática, da formação audiovisual dentro do Jornalismo.
A fotografia como desvio e aprendizado Depois da T5i, Marcos se dedicou por um período à fotografia e comprou a Canon 7D. Mais tarde, concluiu que esse caminho não correspondia totalmente ao que queria. Ele reconhece a beleza da fotografia — uma imagem bem construída pode facilmente se transformar em um quadro — e reconhece que ela contribuiu para desenvolver seu olhar. No entanto, prefere o audiovisual porque gosta de registrar movimento, reação e transformação.
Quando precisa fazer uma fotografia ensaiada, sente dificuldade especialmente na direção das pessoas. Seu ponto forte está em captar acontecimentos espontâneos e transformar um instante de movimento em narrativa.
#15Inteligência artificial: ferramenta de aprimoramento, não substituta da criação
Marcos vê a inteligência artificial como um recurso interessante para melhorar o material, mas não acredita que ela deva fazer tudo sozinha — para ele, a criação ainda depende da cabeça e das decisões do ser humano.
Um exemplo é a criação de câmera lenta: se um vídeo foi gravado em 24 ou 30 quadros por segundo, nem sempre é possível produzir um slow motion convincente apenas com o material original. A IA pode inserir quadros intermediários entre os existentes, tornando o movimento mais lento. Esse tipo de aplicação é útil porque resolve uma limitação técnica que antes era mais difícil de contornar — mas Marcos diferencia esse uso, como ferramenta de aprimoramento, da ideia de delegar toda a produção à IA.
Ele também observa que os padrões de edição mudam rapidamente: uma técnica popular hoje pode deixar de funcionar em pouco tempo, principalmente nas redes sociais.
#16Exportação e qualidade no Instagram
Durante certo período, circulou a recomendação de gravar em 4K e exportar em Full HD para obter melhor qualidade no Instagram. Marcos confirma que essa estratégia funcionava bem: mesmo gravado em 4K e reduzido para Full HD, o vídeo apresentava boa qualidade depois de publicado.
Atualmente, ele grava em 4K e também exporta em 4K — o Instagram passou a aceitar melhor esse formato, e os testes mostraram que a imagem continua com qualidade satisfatória na plataforma. Também foi comentado que algumas técnicas de edição, como empilhar dois vídeos ou trabalhar formatos específicos para redes sociais, podem ter funcionado inicialmente como estratégias de aplicativos e plataformas, mas foram sendo incorporadas ou ajustadas pelas próprias redes.
#17Frames de vídeo usados como fotografias e o trabalho com corridas
Uma característica do trabalho de Marcos é a possibilidade de extrair fotografias diretamente dos vídeos. Na empresa dos apresentadores, é comum pedirem que ele exporte os frames de seus vídeos, porque muitas vezes não é necessário fazer uma sessão fotográfica separada. As imagens são suficientemente boas para que clientes pensem que se trata de uma fotografia produzida no momento, quando, na realidade, são quadros extraídos da gravação.
Essa capacidade se relaciona à forma como ele filma: enquadramentos que funcionam em movimento, mas que também têm força quando congelados em um único instante.
A fotografia de corrida é o principal campo em que ele continua trabalhando com fotografia regularmente. Como há corridas de rua praticamente todos os dias e, em muitos fins de semana, quatro ou cinco eventos diferentes, o esporte oferece oportunidades constantes de captação. A modalidade combina elementos importantes para ele: • o interesse por pessoas em movimento; • a possibilidade de congelar momentos espontâneos; • a produção de fotografias com aparência dinâmica; • a integração entre vídeo e imagem estática.
Marcos gosta particularmente de fotografar movimento: mesmo sendo uma imagem parada, a fotografia de corrida preserva a sensação de ação. Ele também costuma filmar e extrair frames, podendo oferecer vídeos e fotos no mesmo trabalho. Embora tenha migrado da fotografia tradicional para o audiovisual, manteve a fotografia esportiva porque se identifica com a energia e a imprevisibilidade do movimento. No futebol, na corrida ou em uma cirurgia, seu objetivo é sempre o mesmo: procurar o instante expressivo — o olhar, o gesto, a reação ou a mudança corporal que pode sustentar uma narrativa.
#18Guia para quem está começando
Os quatro princípios fundamentais Para quem deseja entrar no audiovisual — com um celular e um sonho —, Marcos destaca: 1. Persistir. 2. Estudar continuamente. 3. Acompanhar tendências. 4. Evitar apenas replicar o que os outros fazem.
Ele critica a repetição automática de formatos populares: uma pessoa pode copiar um vídeo de dança do TikTok ou reproduzir indefinidamente o mesmo estilo de edição, mas isso não desenvolve sua capacidade profissional. O problema não está em usar ferramentas simples, como o CapCut — um editor que domina os fundamentos pode utilizar o CapCut ou o DaVinci Resolve e ainda alcançar uma entrega visual sofisticada. O equipamento e o software são meios; o conhecimento é o que determina o resultado.
O profissional precisa aprender a: • compreender a narrativa; • escolher os planos; • trabalhar o ritmo; • usar a luz; • tratar a cor; • selecionar a trilha; • observar referências; • transformar recursos disponíveis em uma história coerente.
A evolução depende menos de imitar modelos prontos e mais de ampliar repertório e desenvolver uma linguagem própria.
Começar com o celular A recomendação inicial é não esperar pelo equipamento perfeito. Quem só tem um celular pode começar com ele e desenvolver repertório, prática e sensibilidade visual. O celular permite aprender fundamentos importantes: • enquadramento; • composição; • iluminação; • captação de imagens; • edição; • narrativa audiovisual; • publicação e análise de desempenho nas redes.
Quando surgir a oportunidade, vale buscar uma câmera para ampliar as possibilidades de trabalho.
Iluminação Uma das primeiras aquisições recomendadas é uma fonte de luz — modelos da Yongnuo foram citados como alternativa interessante. A iluminação controla o resultado visual mesmo quando o ambiente não oferece condições ideais; para quem está começando, investir em luz pode ser mais útil do que simplesmente trocar de câmera sem compreender como iluminar corretamente uma cena.
Câmeras recomendadas Entre as opções mencionadas, câmeras da Sony voltadas à produção de vídeo e modelos híbridos usados: • Sony ZV-E10 — opção ainda muito boa; • Sony ZV-E10 II — também considerada adequada; • Sony A6400 usada e Sony A6500 usada — para quem quer hibridismo entre fotografia e vídeo, oferecem condições de trabalho bastante satisfatórias.
A orientação geral é aproveitar o celular como ponto de partida, mas migrar para uma câmera assim que houver possibilidade, especialmente quando o objetivo for profissionalizar a produção.
Tripé e proteção da fonte de renda O tripé também foi apontado como item importante: oferece estabilidade e segurança, mas não se deve colocar uma câmera em qualquer tripé. Um equipamento inadequado pode cair e provocar a perda da câmera. Como o equipamento é também uma fonte de renda, protegê-lo deve ser prioridade — a economia feita na compra de um tripé pode resultar em prejuízo muito maior caso ocorra uma queda.
Softwares de edição Ferramenta CapCut Edits (Instagram) DaVinci Resolve Características A opção mais acessível para iniciantes; tem recursos pagos, mas é relativamente barato e possui curva de aprendizagem rápida. Editor gratuito do Instagram, criado como alternativa ao CapCut; ainda não tem o mesmo nível de recursos, mas recebe atualizações frequentes e pode se tornar mais completo. Ferramenta Adobe Premiere Características Gratuito, com perfil profissional; mais complexo que o CapCut, oferece recursos avançados. Há também uma versão paga com mais recursos. Alternativa para quem tem melhores condições e quer avançar ao mercado profissional; alinha o aprendizado às exigências de trabalhos especializados.
A recomendação, porém, é respeitar uma progressão: • • • • • Começar com o celular; Aprender os fundamentos da imagem e da edição; Utilizar ferramentas simples, como o CapCut; Migrar para o DaVinci Resolve ou o Premiere conforme necessidade e recursos; Continuar estudando e aperfeiçoando o trabalho.
A ideia não é que todos precisem começar diretamente com equipamentos e softwares profissionais, mas que é possível iniciar de forma simples e evoluir gradualmente. O estudo contínuo é fundamental: uma câmera melhor, sem domínio técnico, não garante um resultado melhor — o equipamento facilita, mas não substitui o conhecimento.
#19Orgulho profissional e o sonho de fazer um filme
Quando perguntado sobre o trabalho de que mais se orgulha, Marcos citou os vídeos recentes do Santa Cruz, especialmente o vídeo do acesso. A produção envolveu acompanhar a campanha, registrar a torcida e a conquista histórica e retornar para Recife já com a entrega praticamente concluída. O orgulho também está ligado ao vínculo afetivo com o clube e à sensação de ter documentado um momento importante para os torcedores.
Seu grande sonho, sem limitações financeiras, seria fazer um filme. Ele aceitaria imediatamente um convite de um diretor ou cineasta para participar de uma produção cinematográfica de maior escala. A experiência acumulada em futebol, cirurgias, corridas e vídeos institucionais alimenta esse objetivo: construir histórias visuais capazes de transmitir emoção sem depender de explicações excessivas.
#20A imagem que resume risco, paixão e equipamento
No fim da conversa, os apresentadores relembram uma fotografia de Marcos trabalhando dentro do campo, na qual ele aparece com um drone, uma Sony ZV-E10 e um MacBook Pro. O conjunto representava aproximadamente dez mil reais em equipamentos, expostos no meio de um campo de futebol e em uma torcida conhecida pela intensidade.
A cena sintetiza o grau de envolvimento necessário para registrar o acesso do Santa Cruz: Marcos não estava apenas observando a história — estava dentro dela, carregando seus equipamentos e assumindo o risco de estar próximo à celebração. A pergunta final fica suspensa: até onde pode ir a emoção de um profissional apaixonado pelo audiovisual e pelo clube quando precisa escolher entre assistir ao momento e registrá-lo? O episódio termina nesse ponto, com a discussão sobre o equipamento levado ao campo e as circunstâncias dessa decisão ainda em aberto.
#21Encerramento da conversa
Ao final, os participantes reforçaram o convite para acompanhar o trabalho de Marquinhos no Instagram e divulgaram o programa "Quem Disse Que Ia Dar Certo", disponível no Instagram e no YouTube, com presença no Spotify e no Amazon Music. Naquele momento, o Spotify receberia apenas o áudio, enquanto o vídeo seria publicado no YouTube — com a expectativa de disponibilizar futuramente o conteúdo com imagem também no Spotify.
O programa foi encerrado com a ideia de que a evolução ocorre diariamente, em pequenos avanços: "Um por cento por todo dia." Depois de aproximadamente uma hora de conversa, os participantes observaram que o tempo passou rapidamente.
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Conteúdo produzido pela equipe do podcast Quem Disse Que Ia Dar Certo.